Localização: Antigo morro de Santa Quitéria. Data da construção: 1776. Autor do projeto: Manuel Francisco Lisboa. Proprietário: Arquidiocese de Mariana, administrada pela Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto. Tombamento: Processo nº 110-T, Inscrição nº 33, Livro Belas-Artes, fls. 7. Data: 20.1 V. 1938. Finalidade atual: Culto religioso.
A Irmandade de Santa Quitéria, devoção de origem portuguesa, construiu, nos primeiros anos da ocupação, uma pequena capela de pau-a-pique, pobremente edificada, e reconstruída quatro vezes. O local escolhido foi um morro situado entre os arraiais de Antônio Dias e de Ouro Preto. Um grupo de Irmãos da Venerável Ordem Terceira do Carmo do Rio de Janeiro, fixado em Ouro Preto, resolveu separar-se e fundar sua Irmandade própria, o que fez, recebendo Patente de Roma a 15 de maio de 1751, confirmada pela Provisão de 19 de agosto de 1754. Criou seus estatutos próprios em 1755, e resolveu construir sua igreja no local da capela de Santa Quitéria, onde a Irmandade do Carmo se reunia. As condições exigidas pela outra Irmandade foram consideradas inaceitáveis, e os terceiros do Carmo buscavam o apoio do Governo local, visando a cessão dos terrenos. A 12 de janeiro de 1756 a Mesa aprovou um primeiro projeto e a 8 de abril do mesmo ano firmou um contrato com José Pereira dos Santos para a construção. Surgiram novas dificuldades com os Irmãos de Santa Quitéria e, em 1766, foi firmado um acordo entre as duas Irmandades, e nesta ocasião foi aprovado um outro projeto, feito por Manuel Francisco Lisboa, que por ele recebeu 50 oitavas de ouro. A obra foi arrematada por João Alves Viana, mestre português, de Braga, em setembro de 1766. Já havia obras de terraplanagem iniciadas, e terminou no ano seguinte. Viana trabalha muitos anos na obra, até 1778. A sua tarefa era da obra grossa de alvenaria, sendo as ombreiras e vergas das portas e janelas "em cantaria lavrada a escoda". A escoda era uma ferramenta especial para lavrar e alisar pedras já desbastadas. Em certo momento, o mestre pedreiro Francisco de Lima Cerqueira participa da obra. Serviços especiais são feitos: as torres, cobertas com abóbadas de tijolos, as divisões das campas, no interior da igreja, feitas em cantaria. As pedras usadas na construção foram empregadas segundo rigorosa especificação: a) para a alvenaria, usou-se a "laje do morro", quartzito da encosta de São Sebastião; b) para a cantaria aparente a pedra do Itacolomi, quartzito de tom róseo, o "itacolomito" dos mineralogistas; c) para os elementos ornamentais mais delicados, a pedra-sabão, variedades de talco-claro e talco-chisto, cinza e esverdeado ou amarelado. É um hidrossilicato de magnésia, constituída de talco compacto, contendo, de mistura, clorita, mica e amianto. É pedra abundante na região, e também chamada pedra de panela, pelo uso corrente para a fabricação de panela e outros utensílios. O projeto de Lisboa sofre alterações, em curso de execução, de 1770 a 1780. Nesse ano Francisco de Lima Cerqueira contrata as arcadas e colunas do coro, em cantaria. As colunas com capitéis toscanos têm fustes gordos, em forma de balaústres. O mesmo Cerqueira contrata a portada, e não há menção de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, quanto a essas obras. Cerqueira deve ter "metido à sua custa, entalhador capaz, e com toda suficiência para trabalhar e dirigir a obra". O Aleijadinho deve ter executado esse trabalho na condição de "subempreiteiro", sob a responsabilidade do arrematante. Não há a menor dúvida quanto à sua autoria, talvez trabalhando como diarista, a uma oitava de ouro diária. Os sinos foram logo uma preocupação. Fundidos e refundidos várias vezes, há atualmente quatro, todos com nome especial: o grande sino da torre do lado esquerdo é chamado o "Elias" de 1781 tem 1,10m de altura e outro tanto de diâmetro, e exige a força de quatro homens para dobrá-lo; a torre do lado esquerdo tem três outros, de nomes: Jerônimo, Bárbara e Rachel, de 1802, 1840 e 1870. São cobertos com relevos de inscrições laterais. Os altares colaterais e púlpitos foram postos em praça e arrematados por Manuel Francisco de Araújo. Há documento de pagamento feito a João Nepomuceno, pintor, pelo risco que fez. O contrato tinha 12 condições e se aplicava a quatro altares, dois púlpitos e a colocação dos azulejos da capela-mor (primeira menção feita aos azulejos, que já lá deviam estar). A data é 1784. A obra dos seis altares durou muito tempo, pois que em 1799, o empreiteiro Clemente José de Camponês apresenta uma proposta pitoresca, para concluir dois altares, em dois anos, estando já prontos os do arco-cruzeiro. Entra novamente o Aleijadinho, ligado a esses altares pelo seu discípulo Justino Ferreira de Andrade, contratando a fatura dos dois altares por 670$000. Terminou os dois altares de São João e Nossa Senhora da Piedade e encarregado de terminar os guarda-pós e os camarins dos que já estavam prontos de Santa Quitéria e Santa Luzia. Isso teve lugar entre maio de 1807 e janeiro de 1809. Há nesses altares imagens que são atribuídas ao Aleijadinho. Os outros altares foram terminados por Justino Ferreira de Andrade entre 1812 e 1814. O altar-mor foi executado por último, pois a construção foi iniciada pelo corpo da igreja. Em 1813, Vicente Alves da Costa assina contrato para a execução do altar-mor, segundo o projeto que lhe é proposto. Aí também trabalha o entalhador Agostinho José da Silva. O douramento dos colaterais, do arco-cruzeiro, do altar-mor, do "chafariz" da Sacristia, foram contratados com o alferes Manuel da Costa Ataíde, o mestre de artes autor dos tetos de São Francisco de Assis, de Ouro Preto. Trabalho no Carmo entre 1824 e I825. A pintura do teto da Sacristia tem-lhe sido atribuída, sem muita segurança. Finalmente, há um pormenor singular nesta igreja; é a presença de 10 painéis de azulejos, os únicos existentes em Minas Gerais, salvo uma casa de fachada azulejada, em Ouro Preto, na Rua Filipe dos Santos nº 3. A decoração azulejar, tão corrente nas igrejas e palácios das cidades costeiras chegavam diretamente de Portugal, prontas para a colocação. Para chegar a Minas os azulejos teriam de desembarcar no Rio de Janeiro, e ser transportados em dorso de burro, serra acima, numa longa travessia, ao longo do Caminho Novo. O custo de transporte era enorme e a mercadoria pesadíssima. Os azulejos do Carmo de Ouro Preto devem ter custado muito ouro à rica Irmandade, que se permitiu esse luxo insólito. Houve azulejos em Minas, mas "fingidos" pintados em tábua, como em São Francisco de Assis, ou na parede, como no Carmo de Sabará. J. M. dos Santos Simões, o mestre português da azulejaria estudou os azulejos do Carmo de Ouro Preto e os descreveu: 10 painéis recortados de 20 azulejos na maior altura. Rodapé, de fundo marmoreado azul com ornamentação almofadada amarela e motivos concheados em manganês. Os painéis são de pintura azul.
PAINÉIS:
1. S. João da Cruz 3. São Pedro Thomas Arcebispo 5. Sta. Angela Terceira 7. Sta. Maria Madalena de Pazes 9. Sto. Ilias no Deserto 2. S. Simão Estuque 4. Sta. Tereza de Iesus 6. Sto. Alberto Patriarca de Jerusalém 8. N. S. Terando do Posa S. Ioão da Crus 10. Sto. Ilias Arrebatado
Composições enquadradas por emolduramento concheado coroado de flores e remontado com urnas nas divisórias dos painéis. O desenho fraco e convencional, marca o labor de alguma das oficinas conhecidas de Lisboa de cerca 1770-1780.
Descrição
A igreja de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto é uma das mais belas, mais harmoniosas e mais requintadas igrejas, não apenas de Minas, mas de todo o Brasil. Do estudo de Paulo Santos sobre a Arquitetura Religiosa em Ouro Preto - definitivo e insubstituível, pela precisão dos levantamentos e justeza das observações -, consta a planta da igreja do Carmo, por onde se vê a evolução da fachada bombeada, ondulada a feição de uma cômoda barroca. Aqui a parte central da fachada tem uma suave ondulação côncavo-convexa, com a convexidade no portal. As torres, de leve curvatura, são retraídas do plano do corpo central da fachada. Este é enquadrado pelas belas e robustas pilastras de cantaria, que sobem até a arquitrave do entablamento que corre toda a volta do corpo da igreja e é encurvado no centro da fachada, para conter o grande óculo, de contorno movimentado. Esse motivo, que aparece aqui pela primeira vez, inaugurando o ciclo do rococó e a era das elegâncias, vai desenvolver-se em São João de Morro Grande, em São Francisco de Assis de Ouro Preto e em diversas outras igrejas, seguidoras. A composição geral, que segue o partido tradicional: portada - duas janelas-óculo, vai se tornar aqui, mais rica, mais sutil e complexa. A esplêndida portada em pedra-sabão espraia-se em recortes simétricos, como a experiência que os meninos fazem, de mancha de tinta no papel dobrado. O desenho é livre e caprichoso, mas de uma perfeita imbricação e solidariedade dos elementos, até a cartela da Ordem do Carmo, os dois anjos alados sustentantes a coroa. As duas janelas superiores são também de um desenho elaborado, com a cimalha partida em três. Acima da arquitrave, o friso é branco, o que alivia, visualmente, o peso do entablamento. A cornija é alta e robusta e acompanha, concentricamente, a curvatura acima do óculo. O frontão é de justo peso, ocultando a estrutura do telhado de duas águas, marcado pelas pilastras de cantaria, e com um gracioso desenho linear de cantaria, que termina em duas volutas defrontadas; dois grandes consolos estabelecem a concordância do frontão com o corpo das torres. Estas, com suas sineiras, são vestidas pela cantaria vertical das pilastras e terminadas pelas cúpulas campaniformes, encimadas por coruchéus pontudos. O grande frontão, entre as torres, arremata-se horizontalmente, à guisa de uma pedra de altar sobre a qual dispõem-se a grande cruz com resplendor sobre peanha ladeada por dois pináculos em forma de castiçal, cobertos por motivos estrelados. Internamente, a igreja surpreende logo à entrada com os dois pilares torneados de cantaria e os dois meios-pilares embutidos, que servem de apoio aos arcos do coro. José Pereira Arouca foi consultado durante a obra, opinou sobre diversos pontos e deve-se a ele a solução dos arcos de apoio do coro, sendo o central em forma de asa de cesto. Encontram-se na nave os seis altares e retábulos. Estes - correspondem ao período do fim do rococó, mais despojados, mas sempre com as duas colunas de enquadramento, retas e caneladas, com enrolamento floral delicado e capitel compósito. Os frontais de altar feitos pelo Aleijadinho, nos de Nossa Senhora da Piedade e São João, correspondem, respectivamente, à Provação de Job e ao martírio de Jeremias na prisão, este último posto no tronco, como qualquer escravo negro. Esses medalhões ovais são pequenas obras-primas, talvez dentre as últimas obras executadas pelo artista. São dramáticas, pelo planejamento quebrado e a grafia torturada das figuras, especialmente Jeremias e Satan. No retábulo, acima do nível da banqueta, os sacrários são igualmente notáveis, com os medalhões ovais dos três Corações em chamas (Piedade) e do Cordeiro místico (São João). Nos altares estão as imagens dos oragos, e no trono do camarim a imagem do Cristo, numa das estações da Paixão, sempre inscrita na tarja superior dos seis retábulos. O coroamento é feito por um curto guarda-pó entalhado. Todos os altares são em branco e ouro, primorosamente trabalhados. A capela-mor é precedida pelo arco-cruzeiro. Este possui uma peculiaridade, aliás encontrada em muitos outros monumentos: o friso bombeado entre a arquitrave e a cornija do entablamento, que suporta o arco e se apóia na pilastra compósita. Esse motivo, bastante usado na arte barroca, origina-se de Palladio, o grande mestre do classicismo. O retábulo do altar-mor inscreve-se no semicírculo formado pela abóbada do forro. A composição do retábulo comporta as quatro colunas - com nichos intercalados - caneladas no terço superior e com estrias onduladas no inferior; trono elevado, com a imagem da Padroeira. O trabalho de talha, embora ainda repita os elementos do final do rococó, já está em fase final, sem o "nervo", a "garra", dos do Aleijadinho. Os painéis de azulejos, acima citados, revestem os lados da capela-mor. As paredes laterais da capela-mor têm tribunas fechadas por balaustradas torneadas. Devem ser mencionados os púlpitos, cujas bases esculpidas vêm fundir-se com as vergas e sobrevergas ricas e movimentadas portas laterais. Resta falarmos da sacristia, dos ricos elementos de mobiliário e decoração: o belo arcaz com gavetas e credencias em jacarandá ricamente entalhado; os espelhos entalhados e dourados; o suntuoso retábulo central; o grande lavabo e as esculturas em pedra-sabão; os dois grandes bancos de jacarandá com o emblema da Ordem; o teto moldurado, apanelado e pintado, com as cenas relativas aos Santos da Ordem: São João da Cruz, Santa Teresa, Santo Alberto, Santa Madalena de Pazzi, e no medalhão central, a Virgem, entregando o escapulário a São Simão Stock. Finalmente, resta mencionar o curioso cemitério, anexo à igreja, cuja construção foi começada em 1801 e terminada em 1861, com numerosas catacumbas. É uma testemunha melancólica do passado de luxo e grandeza de uma sociedade extremamente pia, rica e devota e que assentava as bases de sua prosperidade num ouro obtido pelo trabalho escravo. "Síc transit..."